Jacques Lacan, no IPLA

Ontem participei de um curso sobre Jacques Lacan em São Paulo, no IPLA. O curso era uma introdução a teoria do psicanalista Jacques Lacan. O melhor resumo que consegui fazer é de que a psicologia de Lacan é baseada na fala, no que falamos e como falamos.

O curso foi muito interessante. Mesmo não sendo psicólogo consegui aprender bastante coisa. Foi legal também entender mais sobre como é “feita” minha terapia.

Algumas frases/conceitos interessantes, que anotei e me ajudaram (mesmo sem ter certeza de que entendi tudo):

– Lacan substitui o “sinto que” por “te escuto”, dando mais ênfase no discurso, no que o paciente fala (e como). Achei essa parte muito interessante. Aumenta minha percepção do valor da palavra, do que é dito. O valor do que falamos é muito grande.

– A dor é solidária, o sucesso é solitário, podendo se tornar uma dor solitária. Interessante pensar nisso, especialmente se buscando o sucesso. Interessante também o fato de que a sociedade não gosta do sucesso, pois quem faz sucesso se distancia, se afasta dos outros.

– Cada pessoa olha o mundo de uma janela única. Para se melhorar, como pessoa, é preciso chegar nesse ponto, que Lacan chama de “fantasma”.

– O analista precisa ser “paciente”, mesmo que seu paciente seja muito repetitivo, para que o paciente possa “não se aguentar” antes de que o analista não aguente mais o paciente. Me vi nesse ponto aqui, pois as vezes acho que falo sempre dos mesmos assuntos.

– Antes existia a angústia da possibilidade, hoje é a angústia das escolhas. Saber escolher hoje é o mais importante.

– A impulsividade causa ansiedade, que é ruim, mas ter a responsabilidade de escolher rápido é bom (atitude precipitada).

– O que dá limites ao homem hoje é a honra e a vergonha, não mais o “policiamento”. É preciso detectar nosso ponto de vergonha e tomar responsabilidade por esse ponto de vergonha (ou de honra).

– Cada um deve ter alguma coisa, que se perdida, não valerá mais a pena viver.

E também ficou o reforço de que a habilidade da comunicação é muitas vezes bem mais importante que o conhecimento sobre o assunto. Jorge Forbes deu 4 das 8 aulas do dia e deu um show. Ele conseguiu explicar conceitos muito abstratos de forma simples e com exemplos do cotidiano. Uma aula sobre como fazer uma aula (ou uma palestra/discurso).

Por exemplo, para explicar que a linguagem é arbitrária, exemplificou com o termo “meu xuxu”, usado no Brasil com mulheres queridas/amadas, que não tem nenhuma razão de ser, e que não é usado em outras línguas, mas que funciona e bem. Fácil e muito bem explicado. Foi uma lição de como comunicar o complicado, de forma simples.

No evento, também conheci muita gente interessante e inteligente, que é uma das coisas que mais gosto na vida. Lá conheci Teresa Genesini, que tem um blog, de onde tirei esse texto, que gostei muito.

Bem-aventurados os que conseguem não ser normais e se destacar.
Bem-aventurados os que continuam a falar a partir do desejo, depois de esgotada a queixa.
Bem-aventurados os que têm ideais, mas não o levam tão a sério.
Bem-aventurados os que suportam espaços vazios, silêncios e ouvir música clássica, sem enlouquecer.
Bem-aventurados os que saem da culpa e entram na responsabilidade do bem-dizer.
Bem-aventurados os que guiam sua ação por um cálculo coletivo, ou dos pequenos outros e não mais pelo reconhecimento do Outro.
Bem-aventurados os que suportam o encontro, a surpresa, o acaso.
(Helainy Andrade, da conferência de Jorge Forbes – A felicidade, no IPLA)

Foi um dia interessante e agradável, com gente inteligente e boa conversa. Gostei também de estar em um ambiente em que eu era um dos que menos sabia sobre o assunto em questão. O desafio e a tranquilidade do não saber.


2 Comments


  1. Oi Miguel,

    que legal seu blog!

    Adorei a matéria sobre o curso do IPLA. Vc destacou frases importantes que representam o que é a clínica de Lacan hoje, a clínica praticada no IPLA.

    Agradeço a menção ao meu nome, vc é generoso.

    Abraços,
    Teresa

  2. Oi Miguel,

    Fiquei surpresa com seu interesse por Lacan e por descobrir que está fazendo análise. Legal. Meu analista era um forte lacaniano. Hoje é mais light. E tem sido muito muito importante na minha vida. E principalmente nos momentos mais difíceis. Mas não por me “colocar no colo”, embora a gente queira muitas vezes, mas por fazer a gente avançar com densidade.

    E sobre ansiedade. Tenho pensado muito sobre isso. Ansiedade é pensar no amanhã e a gente tem que pensar e viver o hoje.

    Ontem vi com a Sofia o filme “Kung Fu panda”. Uma graça. E o “mestre” fala. O dia de ontem é história, o dia de amanhã mistério e o dia de hoje é uma dádiva, por isso que a gente chama de presente. Bonito, né?

    Bjs,

    Isabel

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