Assisti esse final de semana “O cheiro do ralo”, com Selton Melo. O filme mostra a história de um negociante de coisas usadas, que compra pertences pessoais de quem passa por necessidades financeiras. Selton Melo, no papel do comprador Lourenço, compra de tudo, paga muito pouco e despreza as pessoas.
Faz pouco caso das histórias de cada um, e da importância de cada item comprado. Como ele mesmo diz, em uma cena, “preciso ser frio, para comprar barato e ganhar algum lucro ao revender”. Da frieza inicial, ele começa a ridicularizar as pessoas.
Na banheiro ao lado de sua sala, o ralo cheira muito mal e isso começa a incomodá-lo, atrapalhando seus pensamentos. Na maioria dos negócios, as ofertas são ridiculamente baixas. Compra um faqueiro de prata por R$30,00. Faz questão de demonstrar pouco caso pelas pessoas. E toma o troco ao oferecer R$100,00 (e depois aumentar a oferta para incríveis R$112,00) por um violino Stradivarius. O vendedor, visivelmente chateado com a oferta absurda, diz que o cheiro do ralo é o cheiro dele, e explica porque. No fundo, tem razão direta e indiretamente.
Ele começa a comprar algumas coisas sem nexo, como um olho de vidro e uma perna mecânica. O olho se torna seu companheiro inseparável e ele pretende mostrar o mundo ao olho. O vendedor do olho diz “esse olho vale muito, já viu de tudo nesse mundo”… Lourenço compra o olho, paga caro, e fica vidrado no olho. Pela perna, também paga caro. Ele também é aficionado pela garçonete do lanchonete que frequenta, rs…
Lourenço diz não gostar de ninguém. Seu trabalho se beneficia disso, e o torna ainda mais distante das pessoas. É um retrato caricatura das pessoas que só pensam no dinheiro e esquecem dos relacionamentos, da importância das pessoas e de que na vida, sozinhos não somos ninguém. Também mostra que essas pessoas têm dificuldades em se relacionar verdadeiramente, preferindo sempre fazer trocas envolvendo dinheiro (e sem envolvimento).
O filme pode ser usado também como uma aula de negociação, que se baseia nos pilares: tempo, poder e conhecimento. O comprador tinha tempo e poder, o vendedor, indo naquele local indicava que não tinha nem tempo (precisava do dinheiro imediatamente) nem poder (para barganhar o preço). O conhecimento do vendedor sobre o produto não interessava ao comprador, que não queria saber das histórias e das emoções envolvidas. Isso inclusive diminuía o poder do vendedor. O comprador (Selton Melo, no papel de Lourenço) se aproveitava disso e humilhava quem vendia.
Outro fato interessante é que a negociação era do tipo “uma vez e nunca mais”, pois Lourenço não se preocupava em forjar um relacionamento com quem vendia (muito pelo contrário), e isso fazia com que todos o odiassem.
Se você tem um violino Stradivarius e precisa desesperadamente de dinheiro, procure quem gosta/precisa/quer um violino, não quem compra qualquer coisa “na bacia das almas”, para revender com algum lucro.
Algumas frases do filme, que me fizeram rir.
- “Se a comida aqui fosse boa, esse lugar seria o paraíso”, cantando a garçonete.
- “Mulher é tudo igual, se bobear seu nome vai parar na gráfica”, comentando sobre o risco do casamento indesejado.
As tentativas de arrumar o problema do ralo são engraçadas. A relação de Lourenço com o ralo e as conexões altamente improváveis que ele faz entre os acontecimentos da sua vida e o mau cheiro são inusitadas. O diálogo com os encanadores também são ótimos. O filme tem alguns diálogos e cenas um pouco pesadas, mas tem partes muito engraçadas.

Cartaz do filme. Esse olhar de Selton Melo, “olhando o olho olhar” é marcante no filme.
O site AdoroCinema.com tem algumas críticas interessantes. Duas que selecionei: “ri muito do filme e me choquei também” e “ousado, engraçado, triste, cenas fortes.” As fotos são de lá.

Um dos vendedores desesperados, e humilhados por Lourenço (personagem de Selton Melo).


Olá Miguel, gostei do seu texto!
Estava escrevendo em meu cantinho, quando inferi sobre este filme, e assim, pesquisando na internet para linká-lo, cheguei até aqui!
Realmente o Cheiro do Ralo é intrigante e surpreendente a forma como é conduzido. Mas confesso que não achei ele tão bom qto foi a propaganda da “elite cultural” e toda forma de imposição para venerá-lo. Contudo, isso é um oooooutro tema, que pretendo depois falar em meu blog.
Espero conhecer mais seu espaço!
Um abço